Valentina

Valentina

O salto alto ecoava pela rua escura e molhada. O guarda chuva azul marinho, quase imperceptível naquele tempo, voava descontroladamente enquanto Valentina reunia forças para segurar a bolsa, o guarda-chuva e as chaves de casa. Porém o que ela viu a fez derrubar tudo de uma vez.

Havia dois homens em uma picape verde escura, parada do outro lado da rua. Eles se acariciavam e beijavam com tanta intensidade que deveria ser proibido fazer isso em público! E, olhando com mais atenção ela os reconheceu. Eram seu primo e seu marido. Juntos e às caricias… Valentina perdeu o equilíbrio e com os olhos marejados lembrou de quando conheceu seu marido. Havia ido passar um final de semana na praia com a amiga. No último dia de viagem foram convidadas para um lual e um homem bonito e alto tirou-a para dançar. Ficaram juntos a noite toda e depois de dois anos de muitas viagens e presentes, casaram-se na igreja, a pedido da noiva que sempre fora religiosa. Como saberia que encontraria o marido, anos depois quebrando todos os votos daquela noite? O que qualquer mulher faria em seu lugar? Iria bater de frente e perguntar o que era aquilo? Ou começar a gritar na rua? Não. Valentina era uma mulher fina, inteligente. Sabia que havia outras maneiras de lidar com essa situação. Mas naquele momento, tudo o que ela pôde fazer foi recolher suas coisas do chão, respirar fundo e entrar em casa.

Seu cabelo pesava por causa da chuva, seu vestido bege estava quase transparente e seus olhos vermelhos como os de quem não dorme há dias. Ela entrou no chuveiro. Não sabia o que faria quando visse o marido. Não sabia o que dizer. Mas sabia que não iria tocar no assunto tão cedo. Seu marido chegou alguns minutos depois com um enorme sorriso no rosto. Agora fazia sentido ele chegar tão feliz em casa depois de um dia de trabalho. Ele aproximou-se de Valentina e deu-lhe um beijo sem graça antes de ir tomar banho. Ela deitou-se com os pensamentos a mil! Então era por isso que eles iam pescar juntos, mas nunca voltavam com peixe nenhum? Ele sempre fora gay? Pensando agora ela conseguia identificar alguns traços diferentes no primo. As roupas apertadas, a voz, os gestos, a maneira que sempre dizia que ela era uma mulher sortuda… Mas e o marido? Como ela perdeu todos os detalhes? Ele estava sempre arrumado e cheiroso. Nada fora do normal. Apenas tinha um prazer exagerado por sexo anal. Ela tentava lembrar-se da última vez em que transaram, o que acabou sendo em vão. O marido saiu do banheiro e deitou-se logo, alegando estar com sono. Valentina estava cansada e triste e seus olhos fecharam-se sem que ela percebesse.

 No dia seguinte ela saiu cedo, dizendo que tinha assuntos importantes para resolver. O marido achou estranho, porém não deu muita importância. Seria sua oportunidade de ligar para o amante e finalmente economizar com motéis. Tomou um banho, passou seu perfume favorito e em poucos minutos estavam juntos. Eram como um casal de adolescentes, se agarrando por todos os cômodos da casa. Primeiro a cozinha, onde um subiu no balcão enquanto o outro o acariciava. Depois a sala, onde parte das roupas caíram e finalmente o quarto. Onde Valentina e o marido haviam consumado o sagrado matrimônio e agora servia de palco para um sexo gay selvagem. Eles ficaram um tempo juntos gozando da companhia um do outro, se recuperando e fazendo novamente que não viram o tempo passar. Já era noite e Valentina estava retornando, mas ainda tinham tempo.

A porta da casa foi aberta cuidadosamente para que o barulho se confundisse com o barulho da cama rangendo no andar de cima. Valentina saiu de casa decidida, pensando na história de Medéia e em como sempre admirou essa personagem por sua coragem. Agora precisava continuar com seu plano. Respirou fundo, deixou a bolsa no andar de baixo e subiu os degraus devagar com a calibre .38 na mão direita. Abriu a porta e viu o marido por trás de seu primo, gemendo de prazer como ela jamais vira. Ela levantou a arma e sem dizer uma palavra atirou no primo que desabou de quatro, deixando o marido insatisfeito que, horrorizado olhou em direção à origem do tiro. Sua expressão de medo e arrependimento em ver a mulher com o ódio nos olhos e o sorriso maníaco foi o suficiente para ela.

Valentina virou a arma em sua própria direção, mandou um beijo no ar para o marido e atirou em sua própria cabeça, deixando o marido sem prazer, sem mulher e sem amante.

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